Entre fios, “nós” e entrelaçamentos: a arte de tecer o currículo cultural de Educação Física

Maria Emilia de Lima

A velocidade em que os conhecimentos são produzidos e disseminados, ultrapassando limites e barreiras, tem levado a um cenário de permanente mutação do mundo. É possível identificar, de modo generalizado, a influência das forças neoliberais nas reorientações no campo da educação e do currículo. No Brasil, o movimento de ajustes se deu no sentido de colocar as prioridades políticas de costas para o social e de frente para o mercado internacional. Tal posicionamento gerou um discurso de necessidade de reestruturação do sistema educativo. Na política educacional do município de São Paulo, ao longo dos anos, identificamos diferentes diretrizes curriculares e distintas formas de conceber o papel dos educadores. Em cada gestão, os professores foram “re-trabalhados” com vistas não só à implantação de um “novo” currículo como também para a mudança em suas subjetividades. Nos anos de 2006 e 2007, o Referencial de expectativas para o desenvolvimento da competência leitora e escritora e as Orientações curriculares e proposição de expectativas de aprendizagem instituíram na Secretaria Municipal de Educação o currículo cultural de Educação Física. Buscando êxito na sua implementação, foi definida uma política de formação de professores pautada em pressupostos teórico-metodológicos consonantes com estes documentos. Em meio a um emaranhado de textos e discursos, situamos o professor como responsável pelo desenvolvimento do currículo na escola. Considerando por um lado que a política de formação não atendeu à totalidade dos educadores e, por outro, a falta de dados que apontam seus efeitos, investigamos o currículo em ação. Tomamos por objetivo analisar como um professor de Educação Física que participou dos cursos de formação oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, no período de 2006 a 2013, significou sua prática pedagógica. Optamos por um enfoque qualitativo para realizar uma etnografia das aulas de Educação Física de uma escola pública. A observação, a entrevista e o método projetivo foram empregados para a produção dos dados. A ênfase percebida na aprendizagem de aspectos motores, secundarizando os sociais e culturais, indicia a incorporação de concepções acessadas pelo docente durante a formação inicial. Também foi possível identificar o processo de recontextualização mediante uma abordagem superficial para desconstruir discursos que permeiam as práticas corporais. Todavia, a produção curricular no contexto da escola deu-se em grande medida pelo entrelaçamento de sentidos/significados. Alinhado aos pressupostos do currículo cultural de Educação Física e à política municipal de formação contínua, o educador estabeleceu um diálogo profícuo entre o repertório dos alunos e as representações de outros grupos sociais. A análise dos dados evidenciou que o professor produziu o currículo de Educação Física a partir dos processos de incorporação, recontextualização e negociação de significados. Com base no estudo realizado e a guisa de proposição, somos favoráveis a uma política de formação articulada com o currículo em ação, de modo que o contexto da prática pedagógica possa emanar temas para serem estudados e debatidos nas ações de formação contínua. Que esta por sua vez, ao se reorganizar a partir do fazer/tecer dos professores, possa oferecer elementos para mudanças nas políticas educacionais.

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